Dançando a Espiral (por Fernando Fiorin postado no grupo LoA facebook)

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Dançando a Espiral (por Fernando Fiorin postado no grupo LoA facebook)

Mensagem por Klauss K. em Seg Maio 28, 2018 3:47 pm

Dançando a Espiral

“Siga em frente Elisa. Te vejo do outro lado.”

O sorriso de Erick Morte-do-Trovão Burden era ao mesmo tempo cativante e encorajador. O velho Galliard beijou a jovem garou com uma paixão que a deixou com as pernas moles e o coração acelerado.

Dando um passo a frente Elisa sentiu o chão áspero da estranha caverna que teria que percorrer para fazer parte de sua nova família.

Família, uma palavra estranha.

Nunca tivera uma de verdade. Nunca fora tratada como as crianças das propagandas de margarina e refrigerante. Nem mesmo as tais famílias com desajustes das novelas que a madrasta adorava assistir chegavam perto do inferno em que vivera durante quinze anos.

Toda uma vida que se resumia àquele momento, um momento em que finalmente faria parte de algo maior e verdadeiro.

Que se entregaria à Wyrm.

A cada passo que dava sentia um vento quente em sua pele e cabelos. Era como se um ser enorme bafejasse pela outra extremidade do labirinto que se seguia a sua frente.

O cheiro que vinha com o vento era algo puxado para o adocicado e enjoativo.

Lembrava os doces baratos que comia na infância. Doces que ganhava de seu pai após sofrer os abusos que não sabia do que se tratavam. As intermináveis brincadeiras que não poderia contar para mamãe.

Depois de um tempo não fazia diferença. Mamãe morrera de tanto cheirar coca.

Quando a madrasta apareceu tudo parecia que iria melhorar. As brincadeiras pararam por um tempo, tempo em que Elisa entendeu para o seu horror o que acontecia. Ledo engano, claro. O pai teve que escolher e assim Elisa se viu vivendo por conta própria aos dezesseis.

“Venha criança. Venha para os meus braços. Ninguém mais vai te machucar.”

As palavras vinham com o hálito do ser, harmoniosas e aveludadas. Traziam um sentimento de segurança, de bem estar e de conforto. Sentimentos tão estranhos para Elisa que ela quase chorou.

Ao avançar o labirinto descendente, a menina se deu conta que ele não era reto e sim uma longa sequência de curvas que, com o tempo, se mostravam uma espiral.

O frio do lugar era amenizado pelo respirar acalentador do ser que inundava a mente da jovem com momentos alternados de dor antiga e felicidade recente.

Dos abusos e do abandono do pai aos perigos da rua, as drogas e a prostituição, a atração pela moda e a cultura gótica e finalmente o encontro com o roqueiro que era seu ídolo desde os seus doze anos.

Erick Burden, líder de uma banda de Heavy Metal local que fizera bastante sucesso na região durante a primeira década do século vinte e um era tudo o que a jovem poderia esperar de um ídolo que, diziam as más línguas, teve a chance de fazer carreira mundial e jogara tudo fora ao se perder no álcool e nas drogas.

A banda acabara quando Erick supostamente fora enviado para uma clínica de reabilitação em uma cidadezinha do interior, mas agora ele estava ali, na vida dela. Seu amante e protetor.

“Sim, seu amante eterno. Pai dos seus futuros filhos. Meus filhos.”

Elisa desceu mais uma curva, as paredes iluminadas por uma estranha luz esverdeada, marcas em forma de pictogramas espiralados por todo o caminho, o som da voz sempre convidativa e cheia de confiança a propelindo para frente.

Mais imagens vieram enquanto a jovem sentia um arrepio pela pele e os pelos se ouriçando ao recordar quando se entregara aos braços de Erick.

Na verdade a mente de Elisa estava confusa, as paredes começavam a rodar, os pictogramas começam a se borrar e unir, como se fossem uma coisa só. As paredes, o chão e o teto pareciam algo diferente da rocha negra que ornava a entrada. Agora era como se fosse um caminho orgânico. A garganta de um monstro.

O interior de uma serpente.

Aquilo não incomodava a jovem, apenas o fato de que a recordação de sua primeira transformação ainda era confusa e cheia de detalhes insólitos.

Um estuprador tentara a levar a força para um lugar ermo, um terreno abandonado. Elisa gritou por socorro, mas não veio ninguém em seu auxílio. Tentou se defender com o que aprendera na breve estadia das ruas, e foi pouco efetivo, pois o sujeito era enorme e determinado.

E aí o corpo de Elisa explodiu com a mudança.

Músculos cresceram, pelos surgiram, as roupas se rasgaram, todo aquele couro e cetim que faziam parte de seu estilo e refletiam a sua essência. Garras do tamanho de facas substituíram suas unhas pintadas de preto e os dentes, enormes e afiados, estavam prontos para rasgar a carne do violentador e mastigar cada naco sangrento.

O que mais chocou a jovem, ao se ver recordando com tanta nitidez algo que mal se lembrava, foi o sentimento de tristeza por tudo ter acabado tão rápido.

A mudança mal veio e o homem já estava no chão. A urina que impregnava as suas calças e sapatos não causavam nojo em Elisa e sim a atiçavam ainda mais a rasgar o sujeito de cima em baixo. As lágrimas e os gemidos não tinham efeito melhor.

As garras rasgaram o ventre volumoso do homem e fizeram as suas tripas saltarem para fora como um rolo de cordas. O cheiro era revoltante.

Mesmo assim o desejo de mastigar as vísceras era incontrolável.

No entanto algo aconteceu. Sua mente parecia falhar naquele ponto, os detalhes faltando, como peças de quebra-cabeças, a intensidade da situação sendo misturada com a tontura cada vez maior causada pelo labirinto sempre em uma solenoide, descendo para o que parecia um buraco sem fim.

“Lembre-se. Eles estavam lá. E não fizeram nada por você.”

- Quem? Quem estava lá?

“Os servos de Gaia. Meus inimigos. Seus inimigos.”

E de fato a mente de Elisa pareceu acender ao se lembrar quando três criaturas, tão grandes e fortes quanto ela, estavam a sua volta e a contendo antes que pudesse se alimentar da carcaça do estuprador.

Uma delas, com uma bela pelagem preta e branca, diminuiu de tamanho e se tornou uma bela mulher.

Os outros dois, um de pelagem vermelha e o outro em uma pelagem também escura, mas com feições de chacal, a seguravam de ambos os lados, como se tentassem a acalmar.

E foi aí que Elisa se deu conta que a mulher até então parecia um lobo, assim como o ser de pelagem vermelha do seu lado esquerdo. E, por dedução, ela seria um lobo também. Ou algo assim. Lobisomem? Isso lhe parecia estranho, mas que outra explicação poderia existir?

A mulher falava coisas sem sentido, que ela fazia parte da família. Que eles vieram a buscar depois de muito procurar. Que ela e a mulher eram parentes. Se tudo aquilo era verdade, como eles puderam deixar aquilo acontecer?

Será que eles esperaram o molestador agir para ver o que acontecia?

“Sim. Eles queriam a sua dor. Lembre-se.”

Será que Elisa estava se lembrando de forma correta? Ela teve a convicção de que os três sujeitos poderiam ter ajudado bem antes de aquilo tudo acontecer e que, no entanto, esperaram para ver o resultado, talvez como que desejando que o sofrimento da menina a ajudasse a se transformar no monstro que virara e dilacerara o seu algoz.

Eles, no entanto, não contavam com a presença de Erick.

O Dançarino da Espiral Negra atacou furtivamente a mulher que encarava Elisa e a estripou pelas costas usando o que ele chamava de “Adaga de Dente”.

Quando os companheiros dela perceberam o que acontecia partiram para cima de Erick que apenas sorriu e de uma forma estranha soltou um rosnado que a jovem jurou entender como “filhotes”.

O lobo de pelo vermelho sacou um tipo de espada comprida, cheia de ornamentos e tentou decapitar Erick, mas o amor de Elisa se esquivou facilmente.

O chacal tinha a tiracolo uma espécie de bolsa de couro, da qual puxou um tipo de pó escuro que parecia pronto para atirar em Erick. Elisa de alguma forma sentiu que aquilo poderia prejudicar o seu amante e sem pensar duas vezes cravou as garras nas costas daquele ser, o puxando para perto e mordeu a sua nuca, apertando com força.

“Sim, lembre-se. Lembre-se das mentiras.”

Enquanto Erick enfiava a adaga de dente em um dos olhos do lobisomem de pelo vermelho, fazendo a ponta aparecer na parte de trás do crânio em um som que lembrava um barulho alto de mordida, a jovem apertava cada vez mais as presas em volta do pescoço do chacal que se contorcia em pavor e desespero.

- Não, você não está entendendo! Ele é o inimigo! Não nós! Nós viemos te salvar! Nós viemos te buscar... não... não...

As palavras do chacal não pararam as mandíbulas de Elisa, muito pelo contrário.

Aqueles patifes estavam ali, o tempo todo, e nada fizeram para ajudar. E agora queriam a fazer acreditar que eram os seus aliados. Sua família.

Ela agora tinha uma família. Amor. Afeto. Propósito.

Erick a aguardava ao final do caminho, as mãos segurando um hobby de seda negro.

Elisa-Dança-com-a-Espiral se sentiu exultante ao findar o ritual. O seu amante a vestiu e a levou até os novos membros de sua família. Lobos deformados, de pelos verdes, brancos, negros, ausentes ou com manchas ulceradas a olhavam com fervor e alegria.

Homens e mulheres com mais de dois braços ou dois olhos, pústulas que liberavam puses de odor nauseante saudavam a nova membro da tribo.

Nascia ali mais uma filha da Corruptora.

E mais uma ferida no coração de Gaia.
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